JOSÉ LAGARTO VOLTOU
A GRACIETTE SALMON
O Sambaquí - todos sabem - fica além, num recôncavo desta magnífica baía de Paranaguá, tão iluminada e tão colorida, que Assis Chateaubriand escreveu, em falando dela:
" ... tolera a descrição de um artista. Um reporter não saberia traçar o quadro da natureza luxuriante que ela é".
Pára incrustado, pinturesco, num delgado aro de praia, como gema bruta, e é um lugarejo acolhedor, recolhido, com muitos pássaros canoros e grande variedade de madeiras de
lei, onde os moradores - gente boa - vivem da lavoura e da pesca, e nos lazeres fazem soar a viola cabocla, versejando o deslumbramento da terra.
Ninguém, entretanto, se lembra da existência do Sambaquí, plasmado na serenidade da encosta; e se alguma vez uma embarcação a motor demanda suas, águas remansosas,
certo é ir alguém pedinchar votos aos seus homens semi-alfabetizados, para eleições que sempre resultam em nenhum proveito para o lugar, abandonado e sem qualquer assistência.
Fóra disso, o "Sítio do Martinho" permanece em olvido, naquele isolamento gostoso, que é o existir longe da gente ïnteresseira das cidades. É nesse pedaço de bênção do céu, que
vivem José Lagarto e Rosinha-da-Verônica, em ranchos sombreados, quasi a par, respirando o mesmo ar iodado, vendo as mesmas águas. deslizarem sem pressa, deleitando-se com o cantar dos mesmos pássaros, andejando algures, lado a lado, despreocupados da maldade humana, as almas simples fantasiando sonhos ingênuos de felicidade e ventura, sem idealizar riquezas. nem castelos doirados, nessa placidez doce da vida, que os uniu numa afeição perdurante ,e imaculada, plantada desde cedo nos seus corações e florescente sempre.
José Lagarto cresceu com aquela alcunha chumbada às costas, registada na curiosa onomástica do casal, sem que ninguém mais se lembrasse de o chamar pelo nome - José Martinho - descendente de Martinho Velho - Antônio Pedrosa Martinho - violeiro e arroteador sem canseiras, vindo na mocidade de outras plagãs, vagabundeando, numa bandeirada do sul, e ali fincou raizes, por querendão, parando até a fim de seus dias.
De menino que José Martinho ganhara certa topofobia pelas redondezas do rancho taipado de Pedro Tintureira, desde quando, passarinhando com o bodoque de brejaúva e pelotes de barro no bocó de pelo de veado, topou no sapezal com enorme lagarto tejú-açú, fugindo aos pinchos, espavorido, bradando por socorro.
Dês daí o apelido o acompanhara, pela vida além, paxceirando com a sua querença pela menina de Nha Verônica, que então se condoera dêle, animando-o com palavras de mimo.
Entretanto, apesar de ter sido um piazote opado, balofo e açafroado pela opilação que o atacara cedo, era atilado e inteligente, aprendendo a soletrar com a madrinha de batismo, Bertolina Curandeira, que também o pusera bom da ruindade, com cozimentos de cascas de quina branca e fôlha,s amachucadas de Santa Maria, em jejum.
Crescido e vigoroso, afez-se às árduas tarefas do mar, resoluto, tendo o prêmio da afeição intacta de Rosinha-da-Verônica - Rosinha-Beija-flor - como a chamou um dia, surprendendo-a enlevada, a aspirar o perfume de uma flor do mato, sem imaginar êle que estava sendo poeta, na tecedura de mimoso madrigal de amor.
Distante, muito longe mesmo, em terras de que ignoravam a existência, e a que nem os seus pensamentos alcançavam, exércitos adestrados retaliavam-se em chacina, numa luta bárbara e cruenta.
Legiões e legiões estendiam-se em linhas avassaladoras, mecanizadas, aviltando a Civilização, na mais negra página de sua história.
A "cruz gamada" aliara-se ao inimigo da Cruz da Cristandade, na deshumana jornada sanguinolenta. Avalanches do mal prosseguiam sem peias, pisando e destruindo. As for
ças de Satanaz pareciam vencer, e à sua passagem braços erguiam-se aos milhares, em sinal de servilismo e vassalagem. Num madrugar doloroso, porém, bem perto de nós, surgiram das regiões profundas do érebo, as máquinas submarinas, que metralharam e afundaram barcos pacíficos da fraternidade brasileira.
Como os demais povos agredidos, começamos a padecer no sangue e na carne, os tormentos trágicos da guerra. Em todos os peitos cresceu a onda da revolta. E essa revolta gerou nos corações - nos nossos, corações que nunca abrigaram ódio - o desejo ardente de vingança.
Foi quando uma clarinada vibrou clara, sonora, estrugindo pelas quebradas, atravessando o mar, rasgando as montanhas, vadeando os rios, rompendo as matas, até vir ecoar na tranquilidade do Sambaquí, arrepiando aquelas almas simples de praieiros tisnados pelo sol, que sempre viveram em humildade e em paz.
definidos, ou linhas curvilíneas, perfeitas, como se os guiasse um "instinto militar", igualzinho à formação dos possantes pássaros de aço, de caça ou de bombardeio, de que falara José Lagarto, na sua visita de despedida, - que nas batalhas tanto podem decidir da sorte dos soldados, salvando-lhes as vidas, como destruí-los impiedosamente. Nos seus êxtases, nem sentia o mordicar dos maroins silentes, que iam se desprendendo e caindo, saturados do seu sangue, como se fôssem legionários dos exércitos da destruição, que José Lagarto fôra combater. Assim passava os dias, longos e torturosos, no arrebatamento de sua alma, absorta, olhando sempre para o céu e para o mar, vendo as velas brancas que iam passando, que iam desaparecendo na distância, destinos incertos como o do seu bem-amado.
E nos seus olhos ficava sempre boiando uma lágrima, de esperança e de incerteza.
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A convocação e o voluntariado levaram homens de tôda parte aos quarteis. As inspeções sucediam-se rigorosas, e os exercícios prosseguiam ásperos e exaustivos. Uma grande fôrça estava em formação, forjando homens de aço, para a luta extrema. Não tardou que do milagre do patriotismo, surgissem os Expedicionários do Brasil - tropa varonil, que levaria para além mares, a certeza da vitalidade da nossa gente.
E ombro a ombro, com essa mocidade disposta ao sacrifício da vida, marchava José Lagarto, o praieiro anônimo e obscuro do Sambaquí, que de lá viera num amanhecer pintal
gado, quando as, estrelas olhavam do alto, como que penalizadas, os olhos úmidos e tristes de Rosinha-Beija-flor, e os seus lábios assustados, que êle acabara de beijar num ímpeto de amor, como nunca o fizera antes.
Rosinha-Beija-flor vivia em grande tristura, enclausurada à sombra da velha gameleira do porto, tendo no coração o travo do amarujar da saudade. Seus olhos cansados per
diam-se na contemplação do céu vazio e, vezes sem conta, acompanhavam os andos de biguás que passavam em vôos simétricos, de regresso ao pouso das ilhas, traçando no espaço longas faixas escuras., formando extensos V V de ângulos
Os guaperuvús temporões estavam florescidos, deixando cair a esmo a chuva de ouro de suas pétalas. Ponteavam os caules avermelhados dos caraguatás e as orquídeas nativas aviventavam as cores, na esquisita garridice de suas formas. Sabiás sopravam em diaulos encantados,.
Os gaturamos cantavam nas laranjeiras vestidas de noivas, e os tangarás dançavam nos galhos. Em tudo o aroma agreste dos ramos rebrctados, e a alegria verde do mato circundante.
Tudo era alegria e festa. Transparecendo nos. olhos luminosos e no coração de Rosinha-Beija-flor, aflorando-lhe nos lábios carnudos, que voltaram a sorrir. Era êsse o cenário
que a sua imaginação criara, para a recepção de José Lagarto, vindo com o primeiro escalão de tropas brasileiras, de regresso da Itália. E uma tarde êle chegou. De longe as suas mãos aflitas acenavam, como asas ansiadas de alcançar a t-erra.
E depois pisou a praia, trêmulo de emoção. ó milagre do céu!
José Lagarto era o mesmo! Não se alterara com as agruras da guerra, e tinha na boca o mesmo sorriso de bondade!
Trazia na camisa verde-oliva, como troféu de honra, a condecoração por feitos heróicos, em Monte Castelo. Mas,
sob ela, no peito onde uma cicatriz vermelhava, vivo e ardente, estavam o amor de sua Rosinha-Beija-flor, e o suave encantamento da sua figurinha morena, com que marchava sempre.
E isso ela o sentiu bem no fundo dalma, quando êle a tomou nos braços vigorosos, e seus lábios uniram-se num beijo quente, como naquele amanhecer incerto, da triste separação,
em que as estrelas ficaram olhando do alto, penalizadas dos seus olhos úmidos. |